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Novos conselheiros: falta diagnóstico correto da doença celíaca no Brasil

por publicado: 13/06/2017 20h28 última modificação: 19/06/2017 10h20
Mirian Francisca: não há estatística que defina número de vítimas da doença celíaca no Brasil. Isto afeta também um auxílio no Sistema Único de Saúde (SUS). Imagem: Consea

Mirian Francisca: não há estatística que defina número de vítimas da doença celíaca no Brasil. Isto afeta também um auxílio no Sistema Único de Saúde (SUS). Imagem: Consea

 

Buscar mais visibilidade para os celíacos no Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos objetivos da conselheira Mirian Francisca. Representante da Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra), ela ocupa pela primeira vez uma vaga no do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 1% da população mundial tem a doença celíaca. “Não há uma estatística que defina o número de vítimas da doença no Brasil”, diz ela sobre a falta de levantamento de dados no país. Miriam também destaca que é preciso seguir um “protocolo químico” para que os diagnósticos sejam mais precisos, evitando o desenvolvimento de outras doenças já que a doença é autoimune. 

Quais as maiores dificuldades que os celíacos enfrentam? 

Em princípio é o acesso ao alimento adequado, isso porque às vezes ele é saudável, mas não é adequado. Por exemplo, às vezes temos um bolo bonito e com todos os nutrientes, porém é feito com farinha de trigo. Hoje temos os produtos in natura, mas não há uma divulgação em massa deles. Há estados que já têm as gôndolas especiais para produtos de consumo dos celíacos, no entanto, por não haver uma legislação, muitas vezes um produto como a farinha de arroz fica acondicionado perto da farinha de trigo, isto é um problema porque há celíacos que têm mais sensibilidade e esse simples pó pode fazer mal. Em restaurantes ou quando vamos comer fora de casa sempre temos que saber os ingredientes dos alimentos. 

Outro grande bloqueio é o diagnóstico da doença. Não há uma estatística que defina o número de vítimas da doença no Brasil. Isto afeta também um auxílio no Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, por enquanto, como os sintomas confundem muito, os médicos ainda não têm informação e em vez de doença celíaca diagnosticam como azia, intestino irritado ou gastrite, daí medicam sem fazer o simples exame de sangue, e não descobrem se o paciente é celíaco ou não. Isso faz com que não apareçamos nas estatísticas. Se formos reivindicar alguma coisa por quantidade, não temos essa estatística de celíacos. Trabalhamos apenas com a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que mostra que 1% da população mundial é celíaca. 

Nos últimos anos, houve algum avanço que beneficiou os celíacos? 

O próprio protocolo clínico é uma melhoria. Muitas pessoas já foram diagnosticadas, já que alguns médicos buscaram meios de entender melhor a doença. Então houve avanços tanto na área de saúde como na área da alimentação. Também temos a preocupação de alguns produtores talvez até pela novidade do mercado. Hoje você já vai a alguns espaços em que pães, biscoitos e bolos para celíacos são acessíveis. Isto há uma década não era possível. 

O que precisa ser feito de mais urgente para atender as pessoas que têm necessidades alimentares especiais como os celíacos? 

Para os diagnosticados, que as políticas públicas tanto de saúde como da área de alimentos sejam realmente aplicadas. E para os não diagnosticados, um protocolo químico do SUS. Que o SUS veja essa possibilidade de informar aos médicos do protocolo de como diagnosticar um celíaco. Há uma preocupação porque a doença celíaca é autoimune, dessa forma, muitas doenças surgem em cima da fragilidade do corpo do celíaco. 

A rotulagem de alimentos precisa ser melhorada? 

Sim. Até mesmo pela informação contida. Porque às vezes nos surpreendemos com um produto que há muito tempo vem colocado como “não contém glúten” e, de repente, a indústria fez tal produto no mesmo espaço que os produtos com glúten são feitos. Então há uma contaminação cruzada. Hoje você já tem produtos que têm a descrição “contém traços de glúten”. Isso se tornou obrigatório a partir da Lei 10674, que obriga a indústria a informar a presença da substância. No entanto, essa lei não foi regulamentada. 

Qual sua expectativa de participação no Consea? 

É a primeira vez que participo do Consea nacional. Mas já atuo no conselho estadual. Outras pessoas já me antecederam e plantaram a semente da informação no contexto das necessidades alimentares. Espero que a minha experiência como celíaca possa contribuir com informações que eu tenho, como dos instrumentos legais que já existem e auxiliar para que meus companheiros do Conselho olhem com mais atenção pra isso, porque muitas pessoas veem como modismo em vez de entender que isto é um problema alimentar. Temos de descontruir isso e, através dos órgãos competentes, buscar descobrir quem são os celíacos. Isso se resume a melhoria de políticas públicas como também. 

Entrevista: Beatriz Evaristo 

Fonte: Ascom/Consea