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Novos conselheiros: degradação ambiental ameaça cultura indígena, inclusive alimentação

por publicado: 14/06/2017 18h17 última modificação: 19/06/2017 10h19
Universitária, casada, mãe de um menino de cinco anos, Jaciane atua em ações ligadas à Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul). Agora, integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Imagem: Consea

Universitária, casada, mãe de um menino de cinco anos, Jaciane atua em ações ligadas à Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul). Agora, integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Imagem: Consea


Quando se fala em indígenas, logo se pensa em Amazônia, regiões remotas. Mas não é o caso dos Kaingang, um dos cinco povos indígenas mais numerosos do Brasil. Pertencentes à família dos Jê Meridionais, vivem em meio aos pinheirais do Sul e Sudeste, áreas mais populosas do país. Um contato tão próximo com o mundo dos “brancos” deixou marcas profundas entre eles, que se agravam com o avanço de empresas agrícolas, madeireiras e as consequentes disputas de terras. 

Tanto é que, no século XIX, sua cultura se estendia desde a região do Rio Tietê (SP), passando pelo Rio Ijuí (norte do RS), até San Pedro, na província argentina de Missiones. Hoje ocupam pouco mais de 30 áreas, correspondentes a uma ínfima parcela dos territórios tradicionais que habitavam em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A população é de pouco mais de 34 mil pessoas. 

A estudante do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da Universidade Federal de Santa Catarina, Jaciane Goj Téj Kuitá Fideles, se preocupa com a devastação cultural e econômica sofrida por seu povo. “A comida dos índios mudou muito, da minha infância até hoje”, constata a jovem Kaingang de apenas 25 anos, que nasceu, cresceu e vive na terra indígena Apucaraninha, em Tamarana, no interior do Paraná. 

Universitária, casada, mãe de um menino de cinco anos, Jaciane vem atuando nesta causa, em ações ligadas à Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul) e passou a integrar, desde o mês passado, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). 

Confira abaixo entrevista da representante indígena: 

Como começou sua militância nas causas indígenas?

Sou filha de uma educadora, hoje aposentada, a Gilda Kuitá. Ela foi monitora bilíngue da Fundação Nacional do Índio (Funai) e sempre atuou na militância indígena. Sou também a mais nova de cinco irmãos, todos formados e também atuantes na causa. Antes de entrar em uma organização formal, atuei no movimento de dança tradicional, que reúne jovens Kaingangs, meninos e meninas. É um grupo sem fins lucrativos, que percorre todo o Brasil com recursos arrecadados por meio de “vaquinha” entre os próprios membros e às vezes com apoio de alguma organização. Então, a militância veio naturalmente. 

Quais as principais ameaças ao povo Kaingang?

Embora na minha área ainda haja um certo diálogo entre indígenas e setores que atuam no campo, existem lugares em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul onde a disputa de terra é igual àquela que ameaça os Guaranis e Kaiowás no Mato Grosso do Sul. A área original dos Kaingang era de cerca de 88 mil hectares. Hoje, temos regularizados apenas 5.900 hectares. Regularizados, não demarcados. A disputa pelas terras indígenas é feita por fazendeiros, empresas agropecuárias e até mesmo pelo estado. Entre as principais consequências estão a falta de segurança e a degradação ambiental.

Como a degradação ambiental afeta os indígenas?

Afeta a alimentação, a moradia, costumes, tudo. Por exemplo: uma usina hidrelétrica, a Apucaraninha, foi construída em nossas terras e vem funcionando dentro da aldeia desde 1949, sem que tenhamos qualquer compensação por isso. Somente a partir de 2006 começamos a pedir indenização por todas as consequências que a usina causou. A água represada para fazer o lago da usina afetou bastante os rios que existiam aqui. A pesca, uma das principais fontes de alimentação da aldeia, foi prejudicada. Outras sete hidrelétricas estão previstas até 2020 no Rio Tibagi. Estamos tentando antecipar o que pode acontecer em consequência dessas obras.

E a alimentação?

A comida dos índios mudou muito, da minha infância até hoje. Quando eu era criança, comia mais comida natural. Hoje a aldeia está cheia de comida processada, porque é difícil suprir a necessidade de alimentação da população. Até meu filho me pede alimentos industrializados. 

É a primeira vez que você participa do Consea? Qual a sua expectativa? 

Antes, os povos indígenas tinham dificuldade de se comunicar. E os colonizadores estimulavam as rivalidades e as guerras entre tribos, para facilitar a dominação. Hoje, com a compreensão de que os desafios são basicamente os mesmos para todos, há muita união. E o Consea é um espaço de diálogo. Há quatro representantes indígenas aqui. Vamos aproveitar a próxima plenária, prevista para 21 e 22 de junho, e começar a levantar nossas demandas específicas. Estou animada. 

Entrevista: Ivana Diniz Machado

Fonte: Ascom/Consea